
Quando todos acharam que o teaser site com um dragão emblemático da Capcom fosse um novo Breath of Fire, eis que eles nos apresentam Dragon's Dogma. Mundo aberto, mecânica de combate excepcional, personagens carismáticos e uma história atraente, tudo isso foi prometido por Hiroyuki Kobayashi, produtor do jogo - que entre outros trabalhos, cuidou também de alguns clássicos da série RE, além de Devil May Cry 4 -, ao mesmo tempo que já avisava de antemão que não existiria uma campanha online. E nessa nova onda de RPGs ocidentais - encabeçados por Skyrim -, Dragon's Dogma se mostrou uma opção sensacional, mesclando o conceito japonês dentro de uma temática medieval clássica (ou quase) de forma bastante agradável.
Levante-se, Arisen
Depois de alguns minutos escutado a música tema da tela de abertura de
DG, cantada pela banda B'z (Into Free -Dangan-), era hora de apertar o start
e encontrar um prólogo pouco explicativo e enganador. Acontece que você
começa o jogo - ao que parece - praticamente no fim da aventura de um
escolhido. Sob a alcunha de Arisen, você e seus servos precisam
adentrar uma caverna escura e ir de encontro ao Dragão misterioso - que
dá uma palhinha da sua força durante o trajeto. No final da mini-dungeon,
uma Quimera o aguarda. Derrotando ou não o monstro - e aqui vem a
enganação, porque nesse prólogo, a gente realmente vai achar que o jogo é
fácil -, você tem início à sua própria aventura, e é aí que o bicho
começa a pegar.
Depois de montar seu próprio herói - com uma quantidade bastante
aprazível de opções -, você precisa criar também a pessoa que vai
acompanhá-la por todo o jogo. Chamados de servos, esses seres aceitam
apenas serem comandados por pessoas como você, escolhidos desafortunados
que tem uma missão à cumprir. Tudo pronto, é hora de recriar a lenda.
Aos jogadores que também apreciam séries de animes antigas, Dragon's Dogma
carrega um pouco daquela aura medieval japonesa encontrada em The
Record of Lodoss War, OVA do início dos anos 90 e que usava o estilo de
narrativa japonês para sua história de bárbaros, elfos, magos e dragões.
Se não o conhece, essa é a hora.
Continuando, somos apresentados a pacata vila de pescadores de
Cassardis, no exato momento em que um dragão patrocina um churrasco
gratuito na praia, com os moradores da vila, literalmente. Eis que o
dragão resolve que você é um bom alvo para treinar uma magia secular (ou
seria uma maldição?). "Roubarei seu coração e você deve vir buscá-lo,
quando estiver pronto", diz a fera (mais ou menos, não decorei),
enquanto abre seu peito com o mindinho e arranca o órgão pulsante,
engolindo-o em seguida.


O ciclo é o seguinte: o dragão chega, escolhe a pessoa de maior
virilidade (mentira, é a maior força de vontade), arranca seu coração e
manda o cabra vir buscar se o quiser de volta. Durante a jornada, o
jovem guerreiro - que fica sem coração, não morre e torna-se o "Arisen" - precisa transformar-se no novo "Seneschal"
(derrotando o atual, claro). Se ele conseguir, dá fim à maldição. Se
não, transforma-se no novo Dragão, partindo em busca de outro escolhido e
assim por diante.
No meio do caminho tinha uma pedra
Se existe uma coisa que aprendi com Dragon's Dogma é não sair depois de
escurecer. Não, sério, parece brincadeira, mas não é. A dificuldade em
realizar um traslado entre cidades depois que o sol se pões é
multiplicada por mil. Não importa o seu nível de habilidade, você vai
encontrar inimigos completamente diferentes durante a noite, mesmo se
estiver no começo do jogo.
"Cara, sua mina foi procurar uma cura para a sua 'condição'"."Mas para onde ela foi, truta?""Ela foi visitar a bruxa que vive na floresta super tensa e cheia de névoa. E você precisa ir resgatá-la""Ah, ok, vamos lá. Não parece ser tão complicado assim"
O diálogo não é exatamente esse, mas essa é uma das primeiras quests
paralelas que o jogo lhe oferece. E amigos, foi nessa parte que fui
obrigado a "dormir" fora de uma cidade pela primeira vez. Durante a
névoa, na parte da noite, inimigos sobrenaturais, mortos vivos, bandidos
(que não me deixavam passar nem por um decreto), lobos e goblins (os
únicos que meus personagens sabiam enfrentar), tudo conspirando a favor
do game over. Mas, é com orgulho que digo que sobrevivi, literalmente -
tinha tão pouca energia que qualquer poeira no olho me mataria.
A ideia aqui é mais ou menos como se fosse um modo "Normal" de Dark Souls
(já que ele só tem super hard para frente). Não precisamos ficar com
medo de qualquer inimigo que cruze o nosso caminho, mas sim, se vacilar,
dá para morrer facinho contra um inimigo mais fácil. A questão é
puramente de 'timing' - se os enfrentar à noite, ou der o azar de cruzar
o caminho de alguém após uma árdua batalha contra uma Quimera (que em
NADA se parece com a do prólogo).
Essa questão de saber ou não como matar um inimigo vai além do simples 'guia de monstros'. É a mecânica que transforma Dragon's Dogma
em algo particular, fazendo uso, principalmente, do 'quase-multiplayer'
do game. Acontece que em DG, seu servo, aquele personagem criado logo
no início do jogo, funciona como uma espécie de elo com os demais
jogadores através de uma comunidade online de "locação" de servos.

Apesar de não existir um modo cooperativo, a mecânica do jogo foca,
principalmente, como você organiza o seu time. A todo o momento você
pode realizar pequenas mudanças no comportamento do seu servo, que é
controlado através da inteligência artficial do jogo, adaptando-o às
diversas situações. E esse servo criado por você fica à disposição a
qualquer jogador que queira recrutá-lo, via PSN.
Guilda de NPCs
A conectividade dos jogadores em Dragon's Dogma se dá através do 'Pawn System'.
Ao acessar o serviço - na forma de um bloco de rocha reluzente posto em
guildas -, você pode escolher quem o ajudará na aventura. É possível
utilizar ao mesmo tempo três servos, sendo dois "emprestados" de outros
usuários. O sistema permite a utilização até de servos especiais,
mediante o pagamento (Rift Crystal). Se forem do mesmo nível,
não haverá cobrança, no entanto, se você quiser (tentar) facilitar um
pouco a sua vida e contratar um guerreiro nível 100, o gasto pode chegar
a mais de 1 milhão de cristais.
Mas para recrutar um bom servo, é preciso ficar de olho em todos os
seus atributos, em especial, o seu bestiário. Se existe algo que
facilita a sua vida no mundo de DG, é você andar com companheiros que
saibam o que estão fazendo. O conhecimento de cada servo não precisa vir
apenas das suas andanças pelo mundo, pode vir através da utilização de
outros jogadores. E sempre que você salvar seu jogo dentro de uma guilda
(descansando), você atualizará seus status, recebendo informações,
itens e até notas por sua eficiência e, claro, aparência. O conceito é
relativamente simples, mas modifica a experiência de uma forma que
poucos RPGs conseguem.
À caça
O combate em Dragon's Dogma quase chega a transformar o jogo em um "hack'n slash
de pensar". É tão fácil emendar combos, criar situações e espancar o
inimigo, mas ao mesmo tempo, não é sensato sair feito uma vaca loca,
usando a mesma estratégia em tudo que se mexe. Certos inimigos vão
exigir da sua paciência até que aquele contra ataque mortal possa ser
executado.
A questão é que o jogo é fluido no combate, não como um RPG, mas como
um jogo de ação deve ser. Com a ajuda de combinações de botões, é
possível utilizar cerca de 10 movimentos diferentes, variando entre
ataques normais e especiais. E isso sem contar com a ajuda dos servos,
que são direcionados com o controle digital (go!, help, come!). E esse
combate é sua maior arma contra os demais representantes do gênero.

Para o sistema de evolução de classes de Dragon's Dogma, a palavra
flexibilidade é a que melhor pode descrevê-lo. É possível trocar de
classe sempre que desejar - ou tiver pontos de experiência para isso. Ao
criar seu personagem, você precisa também escolher uma classe de
combate para você e seu servo. Cada uma dessas classes trazem
habilidades especiais que, mesmo trocando de classe futuramente,
permanecerão vigentes no seu personagem.
A mobilidade de classes é um fator crucial para a melhor evolução do
seu personagem. Cada uma delas possui habilidades que vão fazer falta no
futuro. Ser um 'strider' por um certo período pode lhe proporcionar uma
agilidade extra para subir montanhas, enquanto a precisão de um
Arqueiro será imprescindível para atingir o ponto fraco de um Ogro,
utilizando-se da sua força extra como 'warrior'. É tudo uma questão de
mesclar essas habilidades intrínsecas no seu personagem para atingir um
melhor resultado.
Não se preocupe com pontos de magia. Aqui o negócio é a stamina. Ela
ditará todas as suas ações. Escalar monstros, carregar companheiros
inconscientes, disparar flechas especiais, ativar fetiços, tudo gira em
torno da sua stamina. Ela se auto preenche com o tempo, mas é fácil da
gente se descuidar e ficar à mercê do perigo, enquanto recuperamos o
fôlego. A vantagem é que ataques comuns não diminuem seu fôlego, então
abuse.
Apesar de estar constantemente ameaçado por grandes RPGs da atualidade (Skyrim, Dark Souls), Dragon's Dogma
é mais do que bem vindo. É uma experiência diferente que, mesmo com
conceitos parcialmente batidos, não peca em entregar uma experiência
cheia de ineditismo com o sistema de aprendizado dos servos e uma
mecânica exemplar para o combate. Um bom exemplo às novas franquias de
jogos.
Enfim:
Nota: 9.5










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